Amarelilás
I
Nunca gostei de mistério.
Se morresse agora
Ninguém saberia quem jaz no caixão.
A verdadeira solidão
É estar cercado de gente
E ninguém te saber.
Ninguém passar da casca.
Se eu arrancasse as janelas,
Conseguirias ver minha alma?
E me contarias depois?
Por favor,
Me conta.
Me conta de mim,
Me conta de ti.
Quero saber como foi teu dia
E o que vês naquela nuvem.
Quero montar uma árvore de natal com ti.
Saber do teu enfeite preferido.
II
Queria tanto te ser transparente.
Me mostrar inteiro:
Meu passado, futuro,
meus anjos e demônios.
Já não dou mais dentro de mim.
Quero é cravar os dedos das mãos
Fundo no peito, abrir as costelas
E deixar tudo sair.
Depois, brando e leve, me aninhar
– um filhote – na palma da tua mão;
Me cobrir da maciez dos teus dedos;
Respirar do amarelo e lilás dos teus poros...
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