Da Visão e da Loucura
Ver é tentar chegar na nascente de um rio nadando, constantemente, contra a correnteza. Na maior parte do tempo não se sai do lugar; ás vezes a correnteza aumenta e se é arrastado para trás, ás vezes ela diminui e se avança um pouco.
A nascente é a realidade das coisas no presente, ou as Idéias platônicas - essa nunca nos é acessível pois só enxergamos sombras do que já aconteceu. A correnteza simboliza os estímulos visuais, e a posição no rio a nossa forma de interpretá-los.
Quando os estímulos diminuem progredimos no rio. São os momentos de insight ou, também, quando contemplamos certas obras de arte – que nada mais são que a seleção dos estímulos certos.
Quando os estímulos aumentam regredimos no rio. O que quer dizer que nossa capacidade de interpretação do mundo diminui, passando a ignorar muitos estímulos para prevenir uma “pane” sensorial. Quando José Saramago disse, no documentário Janelas da Alma, que todo o mundo caminha para a cegueira, foi isto que quis dizer.
E quando a correnteza aumenta mas você se recusa a regredir no rio, nadando mais rápido, fatalmente se cansará e afogará. Isto é a loucura.
Sobre o Documentário “Janelas da Alma”
Acho que, no fundo, se trata de muito mais que somente da visão neste documentário. Ele trata de como interpretamos o ambiente à nossa volta.
Recolhemos os dados que podemos pelos nossos sentidos, mas a atenção que daremos aos detalhes e como vamos agrupá-los para formar uma imagem coerente na cabeça depende de cada um. Por isso alguns enxergam mais cegos que outros com a visão intacta.
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