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Manifesto Técnico

Mon Nov 20, 2006, 8:06 AM
  • Listening to: Ray Charles and some Jazz
  • Reading: John Fante's Bandini, all of them
  • Eating: More than I should...
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Manifesto Técnico


A vida é composta principalmente por paradoxos. A começar de que tudo que existe está fadado a, um dia, deixar de existir. Mas o que será exatamente um paradoxo?

Por definição, um paradoxo é a coexistência e justaposição de idéias opostas e conflitantes - uma aparente falta de nexo. É fato que idéias paradoxais aumentam o interesse por qualquer coisa, pois o cérebro humano é uma máquina com milhares de anos de prática em instituir padrões para ajudá-lo a conceber melhor o Mundo, e quando se depara com algo paradoxal tenta a todo custo achar uma certa lógica.

Talvez por isso achemos a poesia tão fascinante: por um lado, o lado literal, ela não faz sentido algum pois o poeta, para seguir uma métrica, muitas vezes é obrigado a lançar mão de diversas metáforas; por outro lado, esta mesma métrica confere um padrão que nem sempre é tão óbvio – principalmente nas de verso livre – e que apazigua nosso intrínseco desejo de ordem. Da mesma maneira trabalharam os ilustradores infantis ao descobrirem que deformando seus personagens mantinham melhor a atenção das crianças. Os caricaturistas, que atraem multidões para os salões de humor, também utilizam de alguns artifícios além da usual deformação em prol do humor. Na escultura Rodin trabalhava com o áspero e o liso, o bruto e o delicado; Moore diminuía as cabeças de seus corpos gigantescos porque as considerava a parte mais importante.

Na Arte pictórica Cezánne e, mais tarde, os cubistas trabalharam o paradoxo espacial – embora Klint e outros já houvessem feito algo do gênero antes. Os Fauvistas trabalharam o paradoxo nas cores complementares e os Surrealistas nos conceitos e semântica. Os Dadaístas talvez o tenham utilizado até demais.

Isto para citar apenas os mais óbvios. O interessante é que é provável que a maioria dos anteriormente citados nem tenha se dado conta deste enorme padrão que percorre a história das artes ou de sua importância para estabelecer uma relação de impacto visual, interesse e identificação com o espectador do quadro. A proposta do movimento Sincretista é exatamente esta: que a Arte levante novamente os olhos do próprio umbigo e perceba que o Mundo precisa de Arte, e precisa de uma Arte inteligível.

A Arte deve levantar seus olhos e o artista abaixá-los. Com isso faço alusão não somente a um gesto humilde destes seres cada vez mais narcisistas como também quero dizer que para melhor se relacionar com o espectador é necessário um grau enorme de introspecção. O artista deve mergulhar no seu consciente e inconsciente e buscar suas motivações primordiais, porque estas serão as mesmas em todos os seres humanos. Eugen Herrigel compara a Arte do arco e flecha à pintura e diz que quando o arqueiro aponta para o alvo, na verdade está mirando em si mesmo e talvez em si mesmo consiga acertar.

O Sincretismo propõe esta ampliação do conceito de idéias paradoxais para um que abranja também os elementos pertinentes à obra, quaisquer que sejam:

Cores (complementares, claro/escuro, quente/frio...);
Materiais (áspero/liso...);
Estruturas de composição (diagonais opostas, alto/baixo...);
Conceitos (leve/pesado, belo/feio, etéreo/grotesco, bom/mau, movimento/estagnação...);
Abstrato/figurativo.

O Sincretismo não é preconceituoso, ele engloba tudo. O Sincretismo não é conservador como os que teimam em conservar um pós-modernismo já empoeirado. O sincretismo é o que o próprio nome diz.

A proposta é trabalhar com tantos paradoxos quanto for possível numa mesma obra - sincreticamente – e estudar os efeitos provocados objetivando sempre o sublime. Assim como um verde é realçado quando está ao lado de um magenta um pouco rebaixado. Assim como para existir a beleza sublime é necessário também algo de feio e grotesco – pois o belo só pode existir quando existe o feio para contrastar. Assim como toda felicidade tem uma pontinha de tristeza e só existe luz na escuridão. Assim é o mundo em que vivemos e assim deve ser a Arte. Assim é o Sincretismo.

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