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Nadir

Mon Nov 20, 2006, 7:59 AM
  • Listening to: Ray Charles and some Jazz
  • Reading: John Fante's Bandini, all of them
  • Eating: More than I should...
“[...]
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.”

(Elogio da Sombra, Jorge Luis Borges)

...........
NADIR
....................

- Já parou você, leitor, para pensar no que lhe restará ao fim... ao fim de todas as coisas?
Peço perdão pelo tom apocalíptico desta primeira sentença, mas estamos na Era das incertezas, ou do vazio, ou ainda, do ego – afirmam alguns. É uma época em que não há mais surpresas ou limites: uma Era onde tudo já foi feito, tudo já foi sonhado. O que não foi feito nesta realidade o foi ao menos na outra, a ficção. Acabaram-se as ousadias nestes tempos em que tudo é permitido (apesar do onipresente preconceito) e tolo é o que não percebe que o arrebatamento está em extinção.

No momento atual as calças das mulheres e os cosméticos masculinos causariam espanto se causassem algum espanto. No teatro caiu a quarta parede; na pintura subverteu-se a terceira dimensão para revelar a quarta, da própria tela. Engraçado como alguns acham que o futuro está na inclusão do expectador e outros na “exclusão”. Quando não se sabe mais onde ousar volta-se ao passado e resgatam-se valores e a pantomima e os mamolengos e o pobre artesão.

E há a poesia concreta que quer ser pintura. Há também os atores que dançam e os dançarinos que atuam. Há Mozart e Radamés na rádio. A polifonia e a música sem instrumentos musicais. Há até os romances que rejeitam os pontos finais; as poesias sem rimas já nem são novidade e eu estou a esperar uma sem letras. O cinema-arte-temporal que já até tentou negar o tempo; e o teatro e a dança não ficam de fora: vide o Godot, que até hoje não chegou...
- Isto tudo porque meu celular toca Mp3, vídeos, acessa a internet, tira fotos e filma, mas está sem créditos para ligar pra casa. Se bem que estou de olho mesmo naquele da Motorolha que lançaram semana passada e tem a tela LCD meio centímetro maior e também pisca-pisca pra rave! Só não sei se vai sobrar grana pra pôr créditos...

Na arte a ousadia-novidade virou regra até o ponto em que não ousar é a maior das ousadias e talvez nem seja arte! - E quem precisa de escrita-narrativa linear? Não é segredo que odiamos o Tempo, este corcel negro que nos arrasta num galope furioso desde o momento primeiro de nossa existência, enquanto tentamos desesperadamente fincar as unhas no chão ou agarrar uma raiz de planta que passa.

Há quem tente se proteger do aferrado trote correndo velozmente no mesmo sentido e há quem se debata no chão torcendo para que a corda se parta e seja deixado para trás. Estes são os que mais sofrem, pois a corda é de prata trançada e não arrebenta jamais. Porém também são estes que na mesma proporção com que infligem cicatrizes no corpo (pobres diabos!) deixam sulcos irrigados de sangue no solo por onde são arrastados. Por quantos quilômetros inda hão de agüentar não importa, pois destes sulcos nascerá uma nova geração.

O hábito da ousadia, da subversão, tem seus motivos. Inflamado ou não pelo contexto social, não deixa de ser parte da nossa natureza: toda inteligência busca sua dignidade.

Toda inteligência busca sua dignidade, cada uma à sua maneira. Até o sedentário cão de caça declara guerra às lagartixas do apartamento, ou às moscas. Todo gato sempre acha uma sombra de rato para caçar. Vivemos todos com dó de nós mesmos por termos abandonado nossa dignidade nas Savanas. Na corrida nostálgica dos grandes felinos conscientes de seu papel.

Nós também estamos constantemente perseguindo sombras imaginadas. Às vezes, porém, vale mais baixar os olhos do horizonte. Em nossa afetação não percebemos que a dignidade nunca nos deixou, e que as sombras sempre convergem aos nossos pés. No fim de todas as coisas só nos resta sermos fiéis ao que realmente acreditamos: eis a derradeira ousadia.

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